Mary Ju, que está sempre atrás de um “homem bom”, só se depara com homens ruins. Esta é a realidade dos fatos, pelo menos é o que ela conta.
Procura por todos os lados, roda 359º que é pra não parar no mesmo lugar , quase fica vesga, e nada! Mas, quando aparece alguma coisa no horizonte nebuloso de Mary ela não perde a oportunidade, mesmo que seja mais uma pra somar na lista interminável do que se poderia chamar de ciladas do destino. E Mary Ju, do alto dos seus muitos aniversários, ainda cai nas arapucas.
Depois da experiência com o rapaz da informação do ônibus em que pensou, por alguns minutos – poucos! –, que estaria diante de sua alma gêmea, ela recolheu; colocou a barba que não tem de molho, o suficiente para tirar todos os resíduos das relações iniciadas e, impreterivelmente, mal terminadas.
Livrou-se do ranço, das sombras, do mofo de velhas cenas vividas com atores diferentes.
Praticamente, o mesmo texto, o mesmo quadro, o mesmo plano, e ela sempre ali, personagem de todas as apresentações. Ufa! Deu pra cansar, e ela cansou, mas, Fênix, eis que ressurge com toda a pompa e plumas para protagonizar mais um dos inúmeros capítulos de A vida de Mary Ju.
Desta vez, um colega de profissão caiu na sua rede e ela, na maior ligeireza, pescou. Ou tentou, porque, êita peixinho danado! Ameçava, e ameaçava morder a isca, mas na hora H só beliscava. E belisca aqui, aperta dali, escorrega de cá, e aquela falta de decisão do peixe começou a irritar a Mary, que não é nordestina, mas se pega numa peixeira é ruim de largar.
O primeiro contato foi para tratar de possível parceria profissional, mas por que não tentar outras parcerias mais prazerosas? Pronto, foi o bastante para que os neurônios de Mary entrassem em ebulição e ela se animar a tal ponto de confundir sardinha com tubarão e, num piscar de olhos, vislumbrar no colega de profissão o parceiro de todas as horas. Procurou a aliança no dedo e, nada. Sinal verde!
O segundo encontro foi aguardado com o coração aos saltos e forte esperança no coração. Era ele o homem anunciado pela cartomante, que ela confundira com o babaca da informação. A pontualidade britânica do moço encantou mais ainda a Mary Ju, que resolveu lançar o seu olhar felino, toda lânguida para o peixão, que na verdade não passava de sardinha. Fudevú no cassarolê! A sardinha, temendo ser a refeição predileta da gata, ficou com medo de ser prato que se come com a mão e dispensa talheres e não sobrar nem osso. Nada de banquete, pensou o moço temeroso da voracidade de Mary, e ia só tapeando com entradas a fome dela de tubarão.
Rolaram mais dois dates e a sardinha só na promessa de dias de fartos. Pra Mary, promessa é dívida e com sua sutileza habitual partiu pra galega no encontro seguinte e foi direto ao ponto:
- "Escuta aqui, você só vai ficar nessa de bilubilu? Não tenho tempo a perder, rapaz. Já passei dessa idade. Ou trepa ou sai de cima", disse, com a sinceridade que lhe é peculiar.
Sair de cima? Quem dera! Teria sido bom demais. Nem em cima o moço ficou! Ele foi tentando se explicar: era um romântico incorrigível e idealizara a primeira vez em local apropriado, e não num escritório, sem o cenário, sem clima propício.
"Clima propício?", pensou ela que, aquela altura do tesão, com o que menos se importava era com a cama redonda. Aliás, cama redonda a lembrava de uma experiência quase catastrófica vivida muitos anos atrás, quando, no ato, foi arremessada de uma dessas giratórias num motel da Barra da Tijuca.
O peixe foi embora de novo e Mary Ju decidiu que bastava ficar pensando em banquete. Estava cheia de conversa fiada. E com sua capacidade estupenda para transformar príncipe em sapo concluiu que o cara, o puta profissional com quem viajara em altas parcerias, era um farsante! Tremendo 171!! Tinha certeza de que ele não tinha nem diploma, tampouco documento que se apresentasse. Pelo menos ela nunca viu nada. Pensou em denunciar, mas desistiu.
O farsante ainda ligou pra ela duas vezes, na tentativa de ficar melhor na fita, mas Mary Ju não atendeu. Definitivamente, sua maré de sardinha chegara ao fim e ela já estava de olho num badejo suculento que trabalhava no mesmo prédio. Só esperando o momento certo pra jogar a rede.
por Zelda
Como um eco
Não tinhas nome.
Existias como um eco do silêncio.
Eras talvez uma pergunta do vento.
(Albano Martins)
Descobri o poeta português Albano Martins por acaso. Amei a poesia.
Pequenas coisas
Falar do trigo e não dizer o joio.
Percorrer em voo raso os campos
sem pousar os pés no chão.
Abrir um fruto e sentir
no ar o cheiro a alfazema.
Pequenas coisas, dirás,
que nada significam perante
esta outra, maior:
dizer o indizível.
Ou esta: entrar sem bússola
na floresta e não perder o rumo.
Ou essa outra, maior que todas
e cujo nome por precaução omites.
Que é preciso,
às vezes,
não acordar o silêncio.