Há dois meses Mary Ju me disse que andava carente, e Mary carente é perigo iminente (será que já disse isso??). Andava em recesso imposto, porque a maré estava meio baixa pra ela.
- Também, não tenho ânimo pra sair de casa e fico esperando que caia alguém da chaminé que nem Papai Noel com saco cheio - de preferência! - em um prédio que nem chaminé tem. E sabe como é, Magda, sair à caça...
- Nem pensar, Mary Ju, que isso é fim de linha. É melhor esperar pelo Papai Noel, mesmo que de saco vazio, pois nisso dá-se um jeito.
- Ai, meu Deus, que venha logo esse Papai Noel, porque não vou agüentar esperar até o Natal...
Anteontem encontrei a Mary e, discretamente, perguntei pelo Papai Noel.
- Menina, nem te conto! Coisas que só acontecem comigo, não sei por quê...
Falou que dias depois da nossa conversa sobre Papai Noel, ela chegou a pensar que ele, apesar de ocupado com fins mais nobres, resolvera ceder aos seus apelos, pois logo apareceu um possível pretendente que, mesmo que não pretendesse muita coisa, queria o suficiente pra tirá-la do atraso.
Conheceu o moço numa situação das mais inusitadas, em plena Avenida Copacabana pedindo informação de como chegar ao Centro. Ele estava tão perdido que, pra se encontrar, chamou a Mary pra tomar um café antes de ele embarcar no coletivo, alegando que aquela hora estavam todos lotados e o trânsito ruim. Ela lembrou do que a cartomante havia dito há 15 dias, que um rapaz especial ia atravessar o seu caminho inesperadamente. Topou o café.
Com a boa vontade que só o atraso e a fantasia garantem, Mary disse que até achou o "atravessador" simpático.
Conversa vai, conversa veio e Claudio - esse era o nome do moço - falou o que devia calar, pelo menos até que ela caísse nos braços dele: era militar, morador da Vila Mimosa quando não estava no quartel em Vila Kennedy e há seis meses tinha ingressado na Igreja Universal. Revelou tudo num fôlego só. Mary quase caiu dura. "Phodeu! Agora ele vai querer me converter", pensou um minuto antes dele disparar:
"- Quer ir ao culto comigo domingo que vem? Não vou estar de serviço e você pode almoçar lá em casa".
O celular tocou na hora oportuna. Mary disse que atendeu rapidamente e aproveitou o gancho pra inventar que tinha acontecido uma emergência e precisava ir. Pediu a conta e ele o telefone dela.
"- Tenho horror a telefone! Desliguei o lá de casa há dois anos".
"- E o celular?"
"- Não tenho!"
"- Como não! E esse aí?", perguntou o moço sem entender nada.
"- Acabou de quebrar".
- E então?, perguntei a essa altura sem a menor cerimônia.
- Dei "meia volta, volver" e saí batida. Nunca mais Papai Noel me engana com presentes em pleno mês de agosto.
por MAGDA
Num baile da Lapa
Inesperadamente, surge o convite para um baile pré-carnavalesco aquela noite. Pega de surpresa, mas animada de brincar o carnaval depois de muitos tempo, Mary Ju decidiu deixar o dia rolar e ver como se comportava o seu astral. Sentiu grandes possibilidades de declinar o convite. Afinal, era uma segunda-feira, magra, e havia trabalho no dia seguinte.
- Vamos nessa, Mary. Deixa de preguiça!, disse a amiga.
- Não é preguiça, Adalgisa, mas cá pra nós que é muita animação pra uma segunda-feira...
- Tô te estranhando Mary Ju. Você tá ficando é véia.
- Ah, vai à merda. Sabia que ia mexer com meus brios. Véia é o cacete. Vambora pra esse baile de mascarados. Só tem um problema: não tenho máscara.
- Te vira, Mary. Você é criativa.
Fato é que com a falta de tempo, a criatividade fica um pouco prejudicada. Mesmo assim, saiu do trabalho e foi direto pra Ipanema. Só tinha meia hora pra se decidir antes que as lojas que ainda estavam abertas fechassem. Entrou num armarinho e, pimba!, olha a máscara lá, pretinha, bem básica. Arrematou uma camélia da mesma cor , pra dar um ar dramático, e um poá igualmente preto. Saiu da loja feliz. Deu tempo.
"No mínimo, vou parecer uma viúva alegre", pensou por conta das suas aquisições. Correu pra casa porque o baile estava marcado para às 20h e ainda tinha que improvisar a fantasia.
O vestido que havia pensado - na verdade uma combinação - ficou horroroso, e mais parecia... uma combinação. Não encontrou nada no armário que se assemelhasse a uma fantasia.
Acabou apelando pra saia da filha pré-adolescente e improvisou uma blusa de um jeito que parecesse um vestido. Felizmente, encontrou uma meia arrastão comprada tempos atrás pra uma emergência (!!??). Colocou uma sandália de salto alto, prendeu a camélia no cabelo junto com uma plumas, caprichou na maquiagem e, sentindo-se poderosa, enrolou o poá no pescoço. Deu aquela olhada final no espelho, viu-se bonita mas... fantasiada de puta, e lembrou da diferença de não ter mais 20 anos. Quase amarelou, mas o pessoal de casa deu força.
- Vai fundo D. Mary, que a senhora tá a maior gata, disse a assistente de fogão.
- Mãe, você tá linda!, elogiou a filha.
Tomou coragem e ligou pra amiga :
- Tô saindo. Vou pegar um táxi e chego aí em 10 minutos.
- Você pode me ligar quando estiver chegando? Estou com a maior vergonha de ficar na portaria, tô parecendo uma puta...
- Você também, Adalgisa? Eu já praticamente incorporei, disse Mary às gargalhadas.
Pediu pra assistente descer com ela pra pegar o táxi. Na portaria, encontrou com um vizinho, disfarçou que não viu, porém não pode fazer o mesmo ao perceber o ar de riso do porteiro ao avistá-la saindo numa segunda-feira à noite com poá no pescoço e penas na cabeça. No mínimo foi uma visão surreal, nem dá pra culpar o moço.
Entrou correndo no táxi:
- Senhor, vamos pro Leme pegar uma amiga e depois pra Lapa, mas não é nada disso que está pensando!, foi se justicando Mary Ju, roxa de vergonha e se sentindo a própria galinha com aqueles adornos.
A amiga não tinha ficado pra trás. De vestido preto decotado, diversos colares dourados, pernas de fora valorizadas por uma sandália salto fino de 15 cm, saiu ela, passos largos rumo ao táxi. Como Mary, também foi entrando e se explicando:
- Nós vamos pra um baile de máscaras, moço. Eu sou casada, tenho filhos, meu marido está viajando, mas sabe que estou indo pra festa, viu?, falou como se o motorista estivesse realmente preocupado com isso.
Pararam na porta e havia uma meia dúzia de fantasiados. Se sentiram em casa apesar das suas pintas. Lá dentro encontraram o grupo de amigos e decidiram relaxar com a ajuda de uma cervejinha. Mal terminaram o segundo copo, Arnaldo, um amigo pra lá de maluco, inventou de pegar no carro umas fotos e chamou as duas.
- O carro tá aqui pertinho...
Entreolharam-se e falaram ao mesmo tempo:
- Vamos encarar?
Riram, e na mais perfeita sintonia responderam:
- Vamos!
O pertinho do Arnaldo ficava a três quarteirões dali. Quando Mary e Adalgisa se tocaram que, caracterizadas de putas passeavam rebolativas pelas ruas da Lapa, já era tarde. Um buzinaço de taxistas, seguido por "gostosas" em alto e bom som deram o alarde de que não deveriam transitar naquelas bandas - nem em outras! - vestidas em trajes de cabaré.
Adalgisa, uma sacana que não deixa por menos, disparou:
- Aí, Mary Ju, já não volta mais à pé pra casa, hein?
- Pois é, amiga, e não é que tivemos nossos 15 minutos de fama?
E gargalharam até quase faltar o ar.
POR MAGDA
Por amar-te tanto
quis ser mel puro a afinar teu canto,
fiz de minh'alma teu fiel recanto,
por amar-te tanto.
Por amar-te tanto
cobri teu corpo com o mais belo manto,
beijei teus pés e fiz de ti um santo,
por amar-te tanto.
Por amar-te tanto
nos teus olhos é onde mais me encontro,
mesmo que doa e que me custe o pranto,
por amar-te tanto.
E por amar-te tanto
eu te decanto,
em versos, rimas, no amor que planto,
por amar-te tanto.
(out/2003)
por Zelda