7 passos para você se entender bem o Almeida
1. Para você entrar no Clube do Almeida, é preciso aprender, antes de mais nada, a enrolar o Almeida; sim, ele gosta de ser enrolado. No início é meio complicado, mas com paciência e alguma habilidade você chega lá!
2. Você deve observar certas regras: antes de começar a envolvê-lo, tem que deixá-lo bem desmanchado;
3. Aí vem o mais fácil (ou não): acender o Almeida. Ele costuma acender logo, mas às vezes apaga, dependendo da umidade e se você deixou "pedras" no caminho, que podem fazer com que seja um problema manter o Almeida aceso. Afinal, esse é o objetivo do Clube;
4. Não vá com muita sede ao pote, principalmente no início. Usar o Almeida tem limite! É melhor não ultrapassar; o bicho/bode pode pegar;
5. É bom atentar que nem sempre ele está "tragável". Conhecer previamente o humor do Almeida dá uma certa garantia de momentos agradáveis;
6. Claro que você só chegará aqui se antes tiver conseguido uma visita do Almeida. Se ele não aparecer, nada feito!
7. E não se iluda: o Almeida muda dependendo das circunstâncias e cada experiência costuma ser particular. Ele muda de pessoa pra pessoa. Não dá pra comparar! Se o convite foi pra cama,
great. Divirta-se!! Mas se o convite foi pra mesa, não bota a culpa no coitado: você estava mesmo era com fome de comida.
POR MAGDA
Videntes, cartomantes e tais
Mônica sempre foi chegada a videntes, cartomantes, astrólogas, tarólogas e tais. Era uma ânsia pra saber o que ia acontecer que não cabia nela. Nessas buscas pelo futuro, Mônica ouviu poucas e boas. As maiores mentiras e algumas verdades.
Anos atrás, consultou uma vidente tida como "a melhor de todas", que lhe disse que o homem pelo qual estava apaixonada na época não passava de um príncipe desencantado, montado num motor que já tinha até perdido cavalos. Mas quando ouviu que ele era um estereótipo mal-acabado de Don Juan que vivia a seduzir todas que passavam no caminho, Mônica quis morrer, ou melhor, quis matar a vidente que fora capaz de dizer coisas tão falsas sobre a oitava maravilha.
Ficou indignada! Aquele homem era tudo de bom: afetivo, romântico, sensível, apaixonado, apaixonante, e ela passeava pelas nuvens que se movem suavemente na brisa que antecede os primeiros raios de sol.
Saiu de lá arrasando com a fama da vidente. Espalhou para as amigas, para as amigas das amigas e todas as pessoas que ela podia que aquela vidente era uma charlatã, não acertara nada, e além de tudo era invejosa e queria ferrar com a auto-estima das clientes. Mônica quase surtou.
O tempo, não muito, se encarregou de mostrar que a vidente estava certa. Ele era tudo pra ela, achava que era tudo pra ele, mas não era. A cartomante acertara em cheio, traçando um perfil fidedigno do criminoso; sim, porque mentir daquela maneira era um crime.
Por conta de tantas mentiras quase aconteceu uma tragédia de verdade . Sentindo-se enganada, Mônica, desta vez, quis matar o
infeliz, e só não fez isso porque uma amiga, Rose, intuitiva à beça, desconfiou quando ela pegou um facão na gaveta da cozinha, colocou na bolsa e disse:
" - Vou procurar aquele .... " (impublicável!!)
Rose, claro, conseguiu impedir a amiga de fazer essa besteira. Mônica teve uma crise nervosa, mas com muita conversa, um amigo médico e dois comprimidos de valium 5mg, Rose conseguiu controlar a situação.
Foram dias de abatimento. Mônica ficou numa deprê daquelas. Não saía de casa mais pra nada, jogada numa cama, chorando e chorando, não mais pelo
infeliz, mas por ter sido tão idiota a ponto de acreditar num clichê. Até que um dia, querendo saber quando ia sair da depressão, resolveu recorrer às cartas como sempre fazia. E não teve dúvida: marcou com aquela que ela mesma difamara como charlatã, mas que acertara tudo sobre o Don Juan.
Pensou que não fosse ser recebida, pois sabia que ela perdera pelo menos uma dúzia de clientes por causa dela. Mas a vidente aceitou as desculpas e marcou a hora. Mesmo com a debandada de parte da clientela, Mônica só conseguiu marcar consulta pra dois dias depois. Dois dias?? Pensou que não fosse agüentar esperar. Tentou subornar a vidente.
" - E se eu pagasse mais um pouquinho, não conseguia me encaixar? ", perguntou.
"- Não vai dar, filha, estão todos ansiosos como você. "
Resolveu recolher, já que seu passado a condenava e era melhor não cutucar a onça com vara curta. Tinha feito um estrago na carreira da mulher, que se não fosse das boas...
- Ai, meu Deus , porque não acreditei nela?????
Chegou o dia! Duas horas e dez minutos antes do horário marcado, lá estava Mônica, querendo furar a fila. Não teve jeito.
"- Mas não é por ordem de chegada?? perguntou como quem não quer nada.
"- Não, é por hora marcada. Você vai ter que esperar a sua vez."
Na sala de espera, a única leitura era uma Caras de três meses antes. Folheou a revista e pensou que devia ter trazido o livro que estava lendo, mas lembrou que nos últimos 40 dias não fizera outra coisa além de chorar por conta daquele
infeliz. Felizmente, lembrou de trazer o lenço de papel, pois desaguou num berreiro tão grande que a cliente que estava na frente dela liberou a vez.
Mônica entrou aos prantos, pedindo desculpas por não ter acreditado nela, dizendo que o cara era um merda e que a jogara na merda.
"- Nunca mais vou querer saber de ninguém na minha vida. Nunca mais!", repetia afogada em lágrimas.
"- Calma, minha filha, vamos ver as cartas. Corte aqui".
E Mônica cortou. Quando a vidente começou a abrir as cartas, o coração disparou. Que merdas mais viriam?
"- Como eu te disse da outra vez..."
"- Já sei: o cara era um conquistador barato e....", interrompeu Monica
"- ...que tinha coisa bem melhor esperando por você".
"- Não me lembro!"
"- Nem ouviu! Mas eu disse e repito: tem um homem muito melhor esperando por você, filha, e vai te pedir em casamento e não vai demorar mais que o tempo de uma primavera".
"- Não acredito!"
"- Então não sei por que voltou aqui."
"- Acredito sim! Conta mais."
E a vidente contou aquilo que revelara antes, que Mônica ia ser muito feliz, mesmo que ela não acreditasse. E disse mais:
"- Esse homem já admira você há muito tempo, só que você nem reparou. Mas vai, e logo! Ele vai estar te esperando na sua porta e você vai enxergar o homem maravilhoso que ele é. E vai voltar aqui e me contar".
Mônica saiu de lá meio descrente, apesar da cartomante ter acertado tudo sobre o
infeliz. Foi pra casa e viu uma mensagem na secretária eletrônica.
"Mônica, aqui é o Vinícius, amigo da Rose. Queria saber como você está. Liga pra mim quando puder. Um beijo".
O coração da Mônica deu aquela paradinha. Vinícius, sim, ela lembrava dele. Era médico e no dia em que tentou esfaquear o infeliz e entrara em surto, Rose recorrera a ele pra conseguir o Valium e ele fora levar pessoalmente. Que mico!! O homem a tinha visto num estado deplorável. Mas se não ligasse, além de louca ele ia achá-la casca grossa. Esperou uns minutos e retornou a ligação.
"-Vinícius?"
"-Que bom que você ligou, Mônica. Já tinha ligado outras vezes, mas não quis deixar recado. Hoje tomei coragem. Você está bem?"
"- Eu? Ótima. Desculpe aquele dia do valium. Não sei o que me deu. Tive um surto, mas não sou chegada a depressão, viu?
"- Eu sei disso. E já que está ótima, quer jantar comigo hoje?
Mônica pensou em desfalecer, mas aí já era frescura demais. Tratou de respirar fundo e disse sem hesitar:
"- Claro que sim! A que horas?"
Quatro meses depois, Mônica voltou ao consultório da vidente.
"-Que bom te ver, Mônica. Vamos às cartas? Corte aqui."
E Mônica não cortou.
"- Eu já sei do meu futuro. Você me contou. E eu acredito em você. Vim convidá-la pra ser madrinha do meu casamento com o Vinícius, aquele homem bom que você disse que entraria na minha vida assim que aquele infeliz saísse. Pois aconteceu. Naquele mesmo dia que estive aqui, saí à noite com o Vinícius. Já tínhamos nos encontrado várias vezes, mas eu nunca reparei nele. Porém, quando entrei no carro e nossos rostos se aproximaram para um beijo formal, senti um calor tão intenso. que cheguei a pensar: "Isso deve ser atraso!!".
Bem, só sei que aí ele se declarou, disse que me admirava há muito tempo, mas que não se aproximava por causa do
infeliz. Eu confesso que nunca tinha reparado nele."
"- Eu sei. Eu via"
"- Ainda bem que reparei. Ele é tudo o que você me disse e muito mais. Então, aceita ser minha madrinha? Será daqui a um mês."
"- Claro que aceito, filha, e sabia que você ia me convidar"
"- Você é quente mesmo!"
"- E o seu futuro será muito feliz. Pode acreditar!"
Da última vez que Monica deu notícias, há uns meses atrás, estava morando em numa casa em Curitiba com muito espaço para os seus dois filhos brincarem e começara a escrever um livro. Seu casamento com Vinícius, dono de uma clínica de Cardiologia, vai de melhor pra cada vez melhor. Ela, segundo disse, está muito feliz, e eu acredito!
Parece que a vidente acertou!
por Zelda
Um dia acordou e viu que não dava pra continuar no sonho. A realidade estava estampada diante dos seus olhos com a crueldade de uma mutilação. Sem dúvida, perdera uma parte de si; sempre acontece quando abdicamos de um sonho. Como era difícil abrir mão daquilo que acreditava ser o melhor,
crème de la crème. Mas não podia mais fugir dos fatos. Sua história com Maurício só podia ser conjugada no pretérito.
Ela só conseguia pensar em quanto desperdiçara de amor da melhor qualidade. Agora, olhando com frieza, via claramente que ela não era valorizada, que seu afeto era tratado como coisa sem importância. Voltava o filme e percebia que dava muito mais do que recebia, mas estava tão envolvida em brumas de fantasia, que não tinha o distanciamento necessário para perceber a história da qual era personagem.
Foram muitas rasteiras, muitas mentiras, muitas desculpas para que ela, finalmente, acordasse que era hora de deixar pra trás as lembranças de momentos que foram bons sim, mas que escondiam muito de representação. Maurício era sempre muito afetivo, cheio de olhares, de gestos, eterno namorado desaguando nos ouvidos dela doces mentiras. E ela ia acreditando no amor dele, e deixando o dela crescer cada vez mais.
Como tudo que se sustenta na farsa um dia se desfaz, o caso dela não foi diferente. De repente, o homem gentil e atencioso deu lugar a um outro, rude, que sumia sem nenhuma explicação, que criava situações de crises, que geravam brigas e que culminaram com o término da relação. Nenhum dos dois sacramentou o fim; deixaram que o silêncio e a ausência cuidassem disso.
Daí pra frente, o que ela viu foi um festival de desamor. Maurício estava noutra e nem um pouco preocupado em disfarçar. Em nenhum momento demonstrou tristeza ou saudades dela. Ela se perguntava onde errara, o que tinha feito para que ele deixasse de gostar dela e chegava a duvidar que algum dia tivesse feito parte da vida dele.
Ela tentava se convencer de que aquilo era uma fase, e que quando passasse ele cairia de novo nos braços dela. Apesar de todos os indícios de que ele era um mentiroso, ela ainda acreditava que um amor como o deles não pudesse acabar daquela maneira. E permaneceu assim, nesse estado de torpor mental, até o dia em que acordou para a vida com olhos diferentes, encarou a realidade dolorosa da qual não podia escapar, e botou o carro para andar, certa de que tinha feito tudo certo.
por Magda